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América em números

América em números
Nº 1?

Michael Ventura
23 de fevereiro de 2005

Não existe idéia mais incrustada no nosso caráter nacional do que a idéia
de que os EUA são "No 1", "o maior". Nossos meios de comunicação são, em
essência, propagandas contínuas da marca "América é No 1". Qualquer
candidato a cargo eletivo que dissesse o contrário cometeria suicídio
político. De fato qualquer pessoa que diga o contrário ganha o rótulo de
"anti-americano". Somos um "império", não somos? É claro que sim. Um
império sem base industrial. Um império que precisa pedir à concorrência
um empréstimo de US$ 2 bilhões por dia para funcionar. Não obstante, o
delírio é incurável. Somos no 1. Bem... é neste país que vocês moram.

* Os EUA são o 49o país do mundo em alfabetização (The New York Times,
12/12/2004).

* Os EUA ficaram em 28o lugar dentre 40 países em conhecimentos
elementares de matemática (NYT, 12/12/2004).

* 20% dos americanos acham que o Sol gira ao redor da Terra. 17% acreditam
que a Terra dá uma volta por dia ao redor do Sol (The Week, 7/1/2005).

* "Segundo a International Adult Literacy Survey... os americanos com
menos de 9 anos de educação formal tiveram notas piores do que
praticamente todos os outros países" (livro muitíssimo bem-documentado de
Jeremy Rifkin The European Dream: How Europe's Vision of the Future Is
Quietly Eclipsing the American Dream, p.78).

* Nossos trabalhadores são tão ignorantes e lhes faltam tantas habilidades
elementares que as empresas americanas gastam US$30 bilhões por ano em
treinamento suplementar (NYT, 12/12/2004). Não é à toa que se mudam para
outros países!

* "A União Européia está à frente dos EUA em... número de pós-graduados em
ciências e engenharia; despesas com pesquisa e desenvolvimento (P&D); e em
levantamento de novas verbas" (The European Dream, p.70).

* "A Europa ultrapassou os EUA em meados da década de 1990 na produção de
literatura científica" (The European Dream, p.70).

* Não obstante, o Congresso cortou as verbas da National Science
Foundation. A agência concederá 1.000 bolsas a menos este ano (NYT,
21/12/2004).

* O número de matrículas de estrangeiros nos cursos de pós-graduação dos
EUA caiu 28% no ano passado. As matrículas de alunos estrangeiros em todos
os níveis caiu pela primeira vez em 3 décadas, mas aumentou muito na
Europa e na China. No ano passado, o número de pós-graduados chineses nos
EUA caiu 56%, de indianos 51% e de sul-coreanos 28% ((NYT, Dec. 21, 2004).
Não somos mais lugar para se viver.

* A OMS "classificou os países do mundo por desempenho geral na saúde, e
os EUA [ficaram] em 37o lugar". No tocante à eqüidade do sistema de saúde,
estamos em 54o lugar. "A ironia é que os EUA gastam mais per capita na
assistência médica do que qualquer outro país do mundo" (The European
Dream, pp.79-80). Paga mais, obtém muito, muito menos.

* "Os EUA e a África do Sul são os dois únicos países desenvolvidos do
mundo que não oferecem assistência médica gratuita a todos os cidadãos"
(The European Dream, p.80). Com licença, mas desde quando a África do Sul
é país "desenvolvido"? Enfim, é nesse tipo de companhia que andamos.

* A falta de cobertura de seguro-saúde é a causa de 18.000 mortes
desnecessárias de americanos por ano. (Seis vezes o número de pessoas
mortas em 11/9.) (NYT, 12/12/2005.)

* "A pobreza infantil nos EUA agora está em 22o, isto é, em penúltimo
lugar, entre os países desenvolvidos. Só ganha do México." (The European
Dream, p.81). Você esteve no México recentemente? Será que o país lhe
parece "desenvolvido"? Contudo, é o único país "desenvolvido" com
classificação inferior aos EUA em pobreza infantil.

* 12 milhões de famílias americanas -- 10% das residências -- "continuam a
lutar, e nem sempre com êxito, para se alimentar". O número famílias que
"tinham membros que passavam fome em alguma época do ano passado" era 3,9
milhões (NYT, 22/11/2004).

* Os EUA são o 41o país do mundo em mortalidade infantil. Cuba está em
melhor colocação (NYT, 12/1/2005).

* Nos EUA, a probabilidade de morte das mulheres durante o parto é 70%
maior do que na Europa (NYT, 12/12/2005).

* A principal causa de morte de mulheres grávidas neste país é o homicídio
(CNN, 14/12/2004).

* "Dos 20 países mais desenvolvidos do mundo, os EUA ficaram em último
lugar no índice de aumento de salários da sua força de trabalho na década
de 1980... Na década de 1990, o índice médio de aumento aumentou muito
pouco: 0,1% por ano". (The European Dream, p.39). Não obstante, os
americanos trabalham mais horas por ano do que qualquer país
industrializado e têm férias mais curtas.

* "61% das 140 maiores empresas presentes nas classificações da Global
Fortune 500 são européias, ao passo que só 50 são americanas" (The
European Dream, p.66). "Em pesquisa recente das 50 melhores empresas do
mundo, realizada pela Global Finance, só uma era americana." (The European
Dream, p.69).

* "14 dos 20 maiores bancos comerciais do mundo são hoje europeus... Na
indústria química, a empresa européia BASF detém a liderança mundial e
três das seis maiores do mundo são européias. As duas outras são
japonesas. Nem uma única empresa de engenharia e construção dos EUA entre
as nove maiores concorrentes do mundo. Em produtos alimentícios e de
consumo, a Nestlé e a Unilever, duas gigantes européias, estão em primeiro
e segundo lugar, respectivamente, no mundo. No comércio varejista de
alimentos e medicamentos, duas empresas européias... estão em primeiro e
segundo lugar, e há cinco empresas européias entre as dez primeiras. Só há
quatro empresas dos EUA na lista" (The European Dream, p.68).

* Os EUA perderam 1,3 milhão de empregos para a China nos últimos dez anos
(CNN, 12/1/2005).

* Os empresários americanos eliminaram 1 milhão de empregos em 2004 (The
Week, 14/1/2005).

* No ano passado, 3,6 milhões de americanos perderam o seguro desemprego;
1,8 milhão -- um a cada cinco -- desempregados já estão nessa situação há
mais de seis meses (NYT, 9/1/2005).

* Japão, China, Taiwan e Coréia do Sul detêm 40% da nossa dívida externa.
(É por isso que somos simpáticos com eles.) "Ajudando a impedir o aumento
dos índices de juros das hipotecas, a China passou a desempenhar um papel
enorme e pouco percebido no sustento da explosão habitacional dos EUA"
(NYT, 4/12/2004). Leiamos duas vezes. Devemos a nossa explosão
habitacional à China porque ela quer que continuemos a comprar tudo o que
fabrica.

* No decorrer dos próximos 10 anos, é provável que o Brasil ultrapasse os
EUA e se torne o maior produtor agrícola do mundo. O Brasil é hoje o maior
exportador mundial de frangos, suco de laranja, açúcar, café e tabaco. No
ano passado, o Brasil ultrapassou os EUA na categoria de maior produtor de
carne bovina do mundo. (Ouviram, seus cauboizinhos iludidos?) Em
conseqüência disso, enquanto batemos o recorde de déficits na balança
comercial, o Brasil se ostenta um superávit de US$30 bilhões (NYT,
12/12/2004).

* A partir de junho de 2004, os EUA importaram mais alimentos do que
exportaram (NYT, 12/12/2004).

* Bush: 62.027.582 votos. Kerry: 59.026.003 votos. Número de eleitores
inscritos que não compareceram às urnas: 79.279.000 (NYT, 26/6/2004). Isso
é mais do que 1/3. Muito mais. Se mais de 1/3 dos iraquianos se abstiverem
nas eleições de seu país, nenhum país do mundo vai achar que as eleições
foram legítimas.

* 1/3 das crianças americanas são ilegítimas. Metade das crianças
americanas passarão a infância em lar onde vive apenas um dos pais. (CNN,
10/12/2004).

* "Os americanos estão gastando mais em jogos de azar do que em cinema,
vídeos, DVD, música e livros somados" (The European Dream, p.28).

* "É de quase um para quatro a proporção de americanos que [crêem] ser
aceitável o uso da violência para obter o que querem". (The European
Dream, p.32).

* 43% dos americanos acham que às vezes a tortura é justificada, segundo
uma nova pesquisa da PWE (Associated Press, 19/8/2004).

* "Quase 900.000 crianças foram vítimas de abusos ou negligência em 2002,
o último ano em que foram publicados esses dados". (USA Today, 2112/2004).

* "Segundo a International Association of Chiefs of Police, os cortes
feitos pela administração [Bush] na verba federal para as agências
policiais locais deixaram o país mais vulnerável do que nunca". (USA
Today, 17/11/2004).


No 1? Nas mais importantes categorias, não mais estamos nem entre os 10
primeiros. Nem próximos.

Os EUA não são "No 1" em nada além de armamentos, consumo, dívidas e
delírios.

Tradução de Jussara Simões

O original está em
http://citypages.com/databank/26/1264/article12985.asp

   
 
 
 
 
 
 
 

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